
Entre os trabalhos que levei ao 4º Congresso Mundial de Tricoscopia, no Rio de Janeiro, está um relato de caso sobre um sinal raro nas unhas em um caso de alopecia areata universal. O trabalho foi apresentado em formato de e-pôster.
Neste texto, explico o caso em linguagem simples e o que ele ensina: quem tem alopecia areata precisa ser examinado por inteiro, e não só no couro cabeludo. É um conteúdo educativo, que não substitui a consulta nem permite avaliar o seu caso.
Está com falhas no cabelo, nas sobrancelhas ou mudanças nas unhas?
Conheça a alopecia areata e como é feita a avaliação com tricoscopia.
O que é alopecia areata universal?
A alopecia areata é uma doença autoimune: o sistema de defesa do corpo ataca, por engano, os folículos dos pelos e provoca queda. Em geral, costuma começar com falhas redondas no couro cabeludo.
Na forma universal, a perda atinge todos os pelos do corpo: couro cabeludo, sobrancelhas, cílios e pelos do corpo. É a forma mais extensa da doença. Por isso, o acompanhamento costuma ir além do cabelo, e é aí que as unhas entram na conversa.
O que as unhas têm a ver com a queda de cabelo?
O fio de cabelo e a unha nascem de estruturas diferentes, mas ambas podem ser atingidas pelo mesmo processo inflamatório. Na alopecia areata, também é comum haver alterações nas unhas, como pequenos pontinhos na superfície, linhas e rugosidades.
Além disso, na discussão do nosso trabalho, citamos que as alterações ungueais estão presentes em cerca de 22% dos pacientes com alopecia areata. Por sua vez, estudos de outros grupos indicam que elas aparecem com mais frequência em crianças e nas formas graves, como a alopecia total e a universal.
O caso: pontos vermelhos nas lúnulas
A lúnula é a meia-lua esbranquiçada que aparece na base da unha, logo acima da cutícula. No caso que apresentamos, porém, era justamente ali que havia uma alteração pouco comum.
Os principais dados do caso, como descritos no pôster:
- Paciente com alopecia areata havia 17 anos, com recaídas e início no puerpério, o período logo após o parto.
- No exame, perda de pelos em todo o corpo, o que caracteriza a forma universal.
- Pontos vermelhos nas lúnulas de todos os dedos das mãos.
- Em outro serviço, já tinha feito pulsoterapia com corticoides, corticoides tópicos e injetáveis e minoxidil tópico.
- Foram solicitados exames laboratoriais para iniciar um medicamento imunossupressor.
Os imunossupressores atuam sobre o sistema imunológico e exigem exames antes e durante o uso, por isso o acompanhamento precisa ser próximo.
Por que esse achado é raro e importa?
Segundo o que discutimos no trabalho, os pontos vermelhos nas lúnulas são a manifestação ungueal mais rara da alopecia areata, estão associados ao acometimento universal e conferem pior prognóstico, ou seja, uma previsão menos favorável de como a doença tende a evoluir. Isso não quer dizer, porém, que o desfecho esteja decidido: indica que o sinal merece atenção e um acompanhamento mais cuidadoso.
A explicação proposta envolve os vasos sanguíneos da matriz, a região onde a unha nasce. Ou seja, pense na matriz como a fábrica da unha: quando os vasinhos dessa fábrica ficam dilatados e tortuosos, o vermelho aparece através da lúnula. Além disso, fatores locais e sistêmicos seriam responsáveis por essa formação de novos vasos, processo chamado de angiogênese.
Vale lembrar, ainda, que o achado não é exclusivo da alopecia areata. Por isso, interpretar um sinal desses é tarefa do médico, com o quadro completo na mão.
O que o caso ensina
Em resumo, a conclusão do trabalho é direta: o caso é um exemplo claro desse achado na alopecia areata universal e reforça a importância do exame físico completo, principalmente na busca por sinais que possam influenciar o prognóstico.
Na prática, isso significa que olhar as unhas faz parte da avaliação de quem chega com queda de cabelo por alopecia areata. Assim, um sinal pequeno, que o paciente muitas vezes nem percebe, pode ajudar o médico a entender a extensão da doença e a planejar o acompanhamento.
Como o médico avalia as unhas na consulta
O exame das unhas é rápido e indolor. Primeiro, o médico observa a cor, a superfície e o formato de cada unha e, quando necessário, usa o dermatoscópio, o mesmo aparelho de lente de aumento da tricoscopia, para enxergar detalhes que passam despercebidos a olho nu.
Em seguida, essas observações entram no conjunto da avaliação, junto com a extensão da queda, o tempo de doença, os tratamentos já feitos e a presença de outras doenças. Cada dado ajuda a montar um plano de acompanhamento sob medida.
E o tratamento da alopecia areata?
O tratamento é individual e depende da extensão da doença, da idade, de outras condições de saúde e da resposta de cada pessoa. Nos casos graves, no entanto, hoje existem medicamentos aprovados no Brasil, os inibidores de JAK, que comentei no texto sobre o 4º Congresso Mundial de Tricoscopia. Eles têm, porém, critérios de indicação e exigem triagem e acompanhamento médico.
Nenhum tratamento garante resultado, e a resposta varia de pessoa para pessoa. Por isso, a conversa sobre expectativas, benefícios e riscos faz parte da consulta.
Vale marcar uma consulta quando:
- Surgem falhas redondas no couro cabeludo ou na barba.
- Há queda de sobrancelhas, cílios ou outros pelos do corpo.
- As unhas mudam de aspecto junto com a queda de cabelo.
- A queda recomeça depois de um período de melhora.
Se quiser conversar sobre o seu caso, fale pelo WhatsApp. Para entender melhor quem pode atender a queda de cabelo, veja também o texto Tricologista é médico?
Perguntas frequentes sobre alopecia areata universal e unhas
O que é alopecia areata universal?
É a forma mais extensa da alopecia areata, uma doença autoimune. Nela, a perda de pelos atinge o couro cabeludo, as sobrancelhas, os cílios e os pelos do corpo.
A alopecia areata pode alterar as unhas?
Pode. As alterações são relativamente comuns e incluem pequenos pontinhos, linhas e rugosidades na superfície da unha. No nosso trabalho, por exemplo, a literatura citada aponta alterações ungueais em cerca de 22% dos pacientes.
O que são pontos vermelhos na lúnula?
São pontinhos avermelhados na meia-lua da base da unha. Foram descritos como a manifestação ungueal mais rara da alopecia areata e estão ligados a vasos dilatados na matriz da unha. Também podem aparecer em outras situações, por isso o médico precisa avaliar.
Esse achado significa que não há tratamento?
Não. Ele indica, porém, que o caso merece um acompanhamento mais atento. O tratamento é escolhido pelo médico conforme cada pessoa, e a resposta varia.
Existe medicamento aprovado no Brasil para alopecia areata grave?
Sim. A Anvisa aprovou o ritlecitinibe, em janeiro de 2024, para adultos e adolescentes a partir de 12 anos, e o baricitinibe, para adultos. São indicados em casos graves, depois de avaliação e triagem médica.
Escrito por Dr. Éric Aguiar, médico (CRM-RJ 123519-2), com atuação em tricologia e cirurgia de transplante capilar. Autor do relato de caso apresentado no 4º Congresso Mundial de Tricoscopia, no Rio de Janeiro, em outubro de 2026.
Fontes consultadas: e-pôster “Rare nail manifestation in a patient with alopecia areata universalis” (4th World Congress of Trichoscopy, 2026); estudo transversal sobre acometimento ungueal na alopecia areata; aprovação do ritlecitinibe pela Anvisa (CFF).
Diretor técnico: Dr. Éric Aguiar · Médico · CRM-RJ 123519-2
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Conteúdo de caráter exclusivamente informativo e educativo, em conformidade com a Resolução CFM nº 2.336/2023. As informações apresentadas não substituem a consulta médica, o diagnóstico e o tratamento com profissional habilitado, e não devem ser usadas para autodiagnóstico, automedicação ou autotratamento. Cada organismo responde de forma diferente: este conteúdo não representa promessa ou garantia de resultado. Algumas pessoas têm contraindicações aos medicamentos citados de forma educativa, entre elas gestantes e lactantes. Em caso de dúvida, procure orientação médica presencial.
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